
Este trabalho parte de fotografias de casamento realizadas por meu pai, fotógrafo de casamento, entre imagens feitas por ele e uma fotografia em que ele próprio aparece retratado por outra pessoa. Ao editar essas imagens e eliminar os rostos dos convidados, construo um campo visual marcado pela presença da pele, da luz e dos contrastes raciais inscritos na própria fotografia. A intervenção evidencia a diferença entre o corpo negro de meu pai e os corpos brancos ao seu redor, revelando como raça, pertencimento e visibilidade atravessam silenciosamente os registros afetivos e sociais. A ausência dos rostos desloca a identificação individual e faz emergir a pele como território de memória, tensão e leitura política. Mais do que apagar identidades, o gesto busca evidenciar estruturas de presença e apagamento historicamente naturalizadas na imagem fotográfica. Entre proximidade e contraste, as fotografias tornam-se um espaço de reflexão sobre representação, invisibilidade e permanência, atravessando questões ligadas à experiência negra, ao arquivo familiar e às formas como o corpo é inscrito na imagem social.
Fotografia manipuladas digitalmente, 13cm X 13cm, 2023.