Revelar o (In)Visível

Este ensaio visual explora as complexidades das ruas e os saberes afro-brasileiros invisíveis, transcendendo a imagem e a cultura da malandragem. Focado nas memórias esquecidas da cidade, integra narrativas à cultura brasileira com os conceitos de “cruzo”, “ginga” e “encantamento”. A rua, em constante transformação, exige vigilância e adaptação. O olhar maleável, como o gingado, facilita a navegação por essas mudanças. O ensaio valoriza o baixo materialismo na arte, usando objetos comuns das ruas para criar imagens que destacam a beleza na simplicidade e nas vivências cotidianas. A figura do malandro, oscilando entre veneração e crítica, reflete a complexidade da sociedade brasileira, através da literatura de Manoel de Barros ou na de Manuel Antônio de Almeida. Esta natureza camaleônica mostra uma estratégia de adaptação e sobrevivência. Inspirado em Walter Benjamin, o ensaio propõe que cada objeto encontrado na rua representa o início de uma coleção, como a criança que como caçador e transforma tudo em uma única coleção, “caça os espíritos cujos vestígios fareja nas coisas” criando uma narrativa que captura a essência efêmera da vida urbana.

À Manoel de Barros, a Brisa por Aldene Rocha

Pelas ruas onde o encanto se revela,

Quis contar esta aventura ao meu caro Manoel.

Fotografar com a câmera o vento em pintura na tela,

Registrar sua dança, pintada com pincel.

Tentava guardar o sopro igual a você,

Uma costela, um olho, algo para prender.

O vento, fugidia forma, como o sono de alguém,

Me esvaiu entre os dedos, como o vai e vem.

Você me falou que o vento podia empurrar canoa ao barranco,

De Urucum pintado, imagem num flanco.

Cenas imprecisas, mas persisti na busca,

Pelas encruzas, onde a magia não me assusta.

Lembrei do seu menino, cavalo de vento,

Crinas soltas, num prado a cada momento.

Fotografei esse vento num saco plástico, nas ruas a dançar,

Onde o encantamento é arte ainda por desvendar.

Manoel, Ruas que se encontram cruzam caminhos,

Onde o vento e a história são seus vizinhos.

A poesia está nas ruas pelas vielas e encruzilhadas,

Onde todas as brisas são sempre encantadas.

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Técnica mista em assemblage, 2024

Dimensão: 21cm X 29cm